| O substantivo diabetes (diabético) há anos é usado como adjetivo em "coma diabético", "gangrena diabética", e outras condições mórbidas qualificando os ditúrbios característicos dos pacientes portadores de diabetes melito. Ao lado disso, a adjetivação de um órgão ou sistema também é encontrada em outros sítios anatómicos, tais como "pulmão cardíaco", "fígado gordo", "rim gotoso", etc. O próprio pé já foi utilizado para formar substantivos compostos em "pé neuropático", "pé doloroso", e em expressões equivalentes, comuns na prática médica.
Mas se extrapolarmos em excesso, e tomarmos a locução pé diabético como paradigma, correremos o risco de falar em "cérebro diabético", "olho diabético", "orelha diabética", e outros conjuntos disfônicos e inadequados.
É interessante notar que aqui no Brasil e em outros países, o termo "pé diabético"só tomou corpo nas últimas décadas. No passado, as lesões eram referidas como "dos pacientes diabéticos", "do diabético", ao lado da utilização de substantivos compostos, tais como gangrena diabética, amiotrofia diabética, etc. No capítulo "Medical Treatment" (Link15) do tratado 'Vascular Diseases, de Allen, Baker e Hines, de 1966, há 164 citações bibliográficas sem nenhuma menção ao termo pé diabético. No capítulo sobre "Neuro-patia Diabética", de Fernando Pompeu,22 entre as 177 referências bibliográficas, só uma (a de Levin14) usa o termo pé diabético.
Em 1965, Artur Mickeiberg19 refere-se a gangrena nos "pés diabéticos". Em 1971, Barneret al3 falam em "diabet-ic leg". Em 1972, o trabalho de Kahan et al12 tem o nome de "The diabetic foot".
Em 1975, RC Mayall'7 publicou o livro Pé Diabético, no qual cita F. Arduíno2 como responsável pelas locuções "pé"e perna"diabéticas". Pelo que afirma o Prof. David M. Kipnis no prefácio do livro The Diabetic Foot (Levin, 1977),13 foi este autor o primeiro a fornecer informações específicas sobre os diferentes aspectos das lesões do pé e perna do paciente diabético, englobando-as sob uma denominação comum. Esta impropriedade histórica atinge o próprio autor,14 que já utilizava o termo "diabetic foot" um ano antes.
Nos fins da década de 70 ainda havia certa insegurança no emprego da locução pé diabético. Em 1979, McCook18 escreve sobre ..."el chamado pie diabético". No 24° Congresso Brasileiro de Angiologia (1981), no único trabalho sobre o assunto os autores referem-se ..."ao que se convencionou chamar de pé diabético" (Botelho SM et al).''No capítulo sobre Angioplatia Diabética, de Arduíno, em 1980,' não há uma só citação de "pé diabético"entre as 137 tabuladas. Mas nos últimos vinte anos, o nome tornou-se comum, especialmente nas publicações em língua inglesa (Olefsky,20 Brand,5 Gerson," e muitos outros).
Tal como inúmeros outros termos médicos, o pé diabético tem impropriedades e méritos. Tentaremos analisar algumas dessas cambiantes. Entre as principais desvantagens pode-se citar:
l) É demais abrangente, posto que aparentemente engloba o diabetes insípidas que, entretanto, não possui as características patogênicas daDM, especialmente em relação aos pés. |
2) O termo é inespecífico ao englobar os distúrbios de qualquer tecido e arquitetura do pé - ficam sob a mesma égide uma simples infecção fúngica da pele e uma gangrena ou um mal perfurante plantar.
3) Um inconveniente ético-profissional seria a aceitação do diagnóstico de "pé diabético" como completo, suficiente e definitivo, aparentemente desobrigando o examinador de caracterizar os diferentes componentes mórbidos envolvidos no processo e, em consequência, mal tratando a doença e o doente.
Algumas das eventuais vantagens são:
1) Os múltiplos méritos da locução "pé diabético" estão implícitos na ampla e fácil aceitação que mereceu dos médicos angiologistas nas ultimas décadas, período em que, por coincidência, passou a predominar a cultura médica em língua inglesa em nosso meio.
2) É válido pela ênfase que se dá ao pé, um segmento do corpo quase sempre negligenciado no exame médico de rotina.
3) Retraía a experiência dos serviços de todo o mundo, que mostra o aumento da incidência do diabetes melito na população em geral, assim como a crescente prevalência das necroses, infecções e amputações nos pés desses pacientes.
4) Engloba as diversas lesões que podem ocorrer no pé, e que, além do mais, apresentam frequente associação entre elas. Perde sentido o tratamento da neuropatia pelo neurologista, da pele pelo dermatologista, salvo se estiverem aptos a diagnosticar e enfrentar os componentes mórbidos do pé diabético.
5) Pressupõe o conhecimento de todos e cada um dos participantes da síndrome. O que exige uma análise clínica ampla por um especialista treinado ou um estudo multide-partamental, que é, aliás, a tendência atual ( Duque et al).9
6) Define e engloba os eventuais distúrbios, antes mesmo da instalação clínica das lesões orgânicas subsequentes. A ênfase neste ponto de vista é sobremaneira válida posto que focaliza o tratamento profilático das lesões, a melhor terapêutica de que dispomos.
7) Implica o cuidado e o tratamento do pé antes ou tão logo o quadro da hiperglicemia se instale. Prevê o fato inelutável de que as lesões "diabéticas" se instalarão mais cedo ou mais tarde. A ênfase no tratamento profilático nunca será demais.
8) Alerta para a observação do pé homolateral, "sadio", durante os cuidados com lesões instaladas num lado. A potencialidade mórbida do "pé não doente"é hoje amplamente reconhecida, confirmando a constatação original de Marchai de Cal vi feita em 1864."'
9) A aceitação do conceito de "pé diabético" implica, além do mais, uma noção temporal de tratamento. O pé disgênico "hipergiicêmico" deve ser cuidado antes, durante e depois da ocorrência de lesões. |